As autoridades de saúde e os balanços da pandemia

Nesta edição damos voz à Delegada de Saúde Dra. Natércia Veloso que nos informou das competências dos serviços de saúde e nos fez algum balanço da luta contra a COVID-19 no concelho de Alvaiázere.

As autoridades de saúde exercem poderes no âmbito territorial correspondente às áreas geográficas e administrativas de nível nacional, regional e local, funcionando em regime hierárquico. A Autoridade de Saúde Nacional é a Diretora-Geral da Saúde, Dra. Graça Freitas; já a autoridade de saúde de âmbito regional é, no nosso caso, o Delegado Regional de Saúde do Centro, Dr. João Pedro Pimentel. Por fim, as autoridades de saúde de âmbito local são o Delegado de Saúde Coordenador no Pinhal Interior Norte, Dr. António Queimadela Baptista, que conta com seis Delegados de Saúde para a área que integra os concelhos do Pinhal Interior Norte.

Quando ocorrem situações de emergência grave em saúde pública, o Ministro da Saúde toma as medidas necessárias de exceção que forem indispensáveis, coordenando a atuação dos serviços centrais do Ministério com as instituições e serviços do SNS e as autoridades de saúde de nível nacional, regional (da unidade territorial) e municipal.

É o que decorreu com a pandemia por COVID19 - a doença (D) por um vírus (VI) que aparenta possuir uma coroa (CO), identificado no ser humano no final de 2019 em Wuhan, a cidade chinesa, por isso já famosa, donde muito rapidamente se estendeu ao resto do planeta (até Alvaiázere), gorando da falta de conhecimento que tínhamos acerca dele e, de algum modo, apesar de todos os esforços de um mundo inteiro, continuamos a ter.

A doença é tratada com fármacos comuns, nem sequer muito onerosos, e métodos conservadores, revelando-se novas terapêuticas inconsistentes nos resultados ou sem o tempo decorrido ser suficiente para validá-las.

Descreveríamos, há menos de meio ano, como impensáveis e de todo inacreditáveis, as medidas adotadas que se revelaram as mais sensatas.

Há uns tempos, ouvi Lula da Silva dizer, como “escondermo-nos dele” é a “melhor forma de enfrentar este inimigo [contra quem] ainda não há armas”. E apesar de ter considerado chocante a forma como pôs a questão, não pude deixar de lhe dar razão: como “escondermo-nos” foi a atitude sensata.

Esta pandemia, independentemente das histórias mediatizadas das vidas jovens que ceifa, é, sem margem para qualquer dúvida, muito mais perigosa para os que tem mais idade. (Sinal inequívoco de superação, por Portugal, e pelo SNS, será ficarem por cá muitos dos nossos anciãos e não nos falte brio, nem engenho em o assumirmos: vencer esta batalha pode ser tornarmo-nos, ainda mais um país, com um nº recorde de idosos - um renovado desafio.)

Os que vivem em Lares (ou ERPIs, já que alteramos repetidamente o nome às coisas: Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas), à semelhança do país, europa e mundo, também em Alvaiázere, foram os primeiros a ser atingidos: utentes e funcionários, sem distinção, do Solar de D. Maria foram contaminadas nos primórdios desta crise em Portugal, ainda em plena fase de preparação para lidar com ela.

Passados que são 2 meses, continuam a surgir situações semelhantes, mas bem mais esparsas porque, entretanto, surgiram as respostas estruturadas, inexistentes na altura, múltiplas e coordenadas.

Mas também foi possível encontrá-las: contando com o mérito das decisões da Sra. Presidente do Câmara, Dra. Célia Marques (entre elas a da promoção dos testes COVID 19, a expensas municipais - época difícil, em que, além de não serem os testes comuns, nem convencionados pelo SNS, havia recomendações para que a colheita de amostras ocorresse apenas em laboratório - situação ultrapassada pelo empresa Beatriz Godinho que veio ao terreno proceder à sua recolha); contando com a inexcedível atenção, hipervigilância e cooperação do Sr. Comandante dos BVA, Bruno Gomes; contando com o discernimento do Sr. Coordenador da Unidade de Saúde Pública, Dr. Queimadela Baptista. Mas também em resultado da dedicação dos funcionários do Solar de D. Maria com testes negativos que aceitaram deslocar-se ao trabalho durante o seu tempo de quarentena, da inestimável colaboração de voluntários, alguns coaptados pela Segurança Social e outros, cidadãos do concelho, incluindo reputados enfermeiros e da avaliação mantida pelo médico de apoio ao Solar, Dr. Bernardino Silva.

Contou-se com o afastamento preocupado do enfermeiro João e das cuidadoras infetadas e com a compreensão das suas proprietárias/dirigentes, a quem não deve ter sido fácil manter-se afastadas, acatando decisões para suprir necessidades que não podiam ser asseguradas de outra forma, com mérito de quem aceitou prestar serviços de suporte ao Solar, como os responsáveis do Restaurante “O Mercado” de Maçãs de D. Maria ou da “Lavandaria da Ana” de Cabaços, ou realizar intervenções determinantes como a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS, que integrou o GiPS) da GNR de Leiria, na desinfeção do espaço.

Além dos préstimos de todos os outros que colaboraram na avaliação, proteção e apoio das pessoas infetadas na comunidade e seus conviventes, a começar por estas próprias, aos bombeiros do BVA, aos guardas da GNR, aos autarcas e seus funcionários.

Nenhum dos que perdemos, a cujas famílias deixo o meu pesar, terá morrido em consequência direta do Coronavírus - quer aquelas que faleceram nas suas camas de Lar, quer as que sucumbiram no hospital (a que se soma uma senhora, residente e transportada desde sua casa em Almoster). O concelho de Alvaiázere não deveria registar, por isso mesmo, qualquer óbito por COVID19.

Independentemente do peso da infeção no agravamento de outras doenças suas, pergunto-me se ser tratado, ou sequer cuidado, confinado a um quarto, por pessoas atafulhadas de vestes, máscaras, luvas e viseiras (em que mal distinguimos às vezes, os colegas de todos os dias), não afetará o espírito até dos mais resilientes.

Mas ainda não descobrimos outro modo de o fazer. Há muitas respostas que ainda não temos. Não sabemos porque há notórias diferenças da capacidade de contágio pelos infetado. Ou porque os testes laboratoriais para COVID19 negativam nos 14 dias previstos só nalguns, persistindo noutros, mesmo jovens, mesmo assintomáticos, apenas (infindáveis) semanas depois. Continuaremos por isso a confinar quem tem resultados positivos para COVID 19.

Sabendo, porém, que haverá muito mais gente infetada (5 a 10 x mais) - eu? o leitor? - na comunidade.

E é por isso que temos de continuar a protegermonos. A todos, de todos.

Sem esquecer o refúgio que a nossa casa pode ser - e tão gratos devemos ser aqueles para quem a nossa casa é isso - chegou, porém, a hora de explorar terrenos e espaços, esses, que tão bem conhecíamos, necessariamente de um outro modo, mas também com um outro olhar: “uma nova primeira vez”.

A nova normalidade tem de ir buscar à de sempre uma retoma da vida de todos.

Natércia Veloso, Delegada da Saúde Pública de Alvaiázere
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