Sinos voltam à “Terra dos Sinos”

No passado dia 3 de Abril os sinos voltaram a ser colocados na torre sineira da Igreja Matriz de Alvaiázere, após limpeza e reforço de segurança dos cabeçalhos, numa intervenção técnica pela empresa Serafim da Silva Jerónimo, de Braga. Ao invés do passado, em que os sinos eram erguidos pelo interior da torre e o peso de toneladas do bronze era suportado pelo esforço físico dos homens, no séc. XXI o recurso a guindaste automatizado permitiu a colocação pelo exterior, numa operação rápida graças à perícia do manobrador e coordenação dos técnicos especialistas.

Alterações nas torres sineiras são ocorrências raras e em regra medeiam séculos, pelo que o momento da subida dos sinos foi marcante na história da comunidade Alvaiazerense. No adro, a acompanhar a colocação dos sinos, encontrava-se o Reverendo Padre André Sequeira e o Sr. Ilídio Teodósio, além de outros elementos da Fábrica da Igreja. Deixamos um pequeno comentário sobre este património religioso que se inscreve na História da Arte Sineira Portuguesa, com uma nota prévia, regressaram os mesmos quatro sinos da torre sineira ainda que o dourado dos sinos possa parecer que são outros.

Na parte superior e exterior da torre sineira e de novo apoiados no gradeamento de ferro, recolocados os dois sinos, o de maior dimensão, o sino das horas, fundido no ano de 1689, não tem inscrição do mestre fundidor, o que ainda era corrente no séc. XVII. Ao nível da iconografia inscrita no sino salienta-se a cruz em peanha, com raios direccionados à cruz e inscrições em latim invocadoras da protecção das tempestades, tem ainda a particularidade da invocação do nome de Cristo, nas formas abreviadas dos Cristogramas em Latim e Grego, IHC e XPS.

No topo do sino das horas, é visível um sino mais pequeno, é o sino dos quartos, também sem identificação de fundidor, terá sido fundido a partir do séc. XVII, tem em alto-relevo o recorte de um brasão, não identificável pela corrosão. Estes dois sinos e o relógio foram colocados na torre sineira, no ano de 1837, sabendo-se que o relógio teve proveniência do Convento de Santa Cruz do Bussaco, dos monges da Ordem dos Carmelitos Descalços e o brasão do sino pequeno deveria conter essa identificação.

Nos “olhais” vulgarmente conhecidos como as janelas das torres, no frontão da Igreja Matriz dois sinos grandes, um de autoria de Manoel António Linhares, fundido em 1855, com iconografia semelhante ao sino das horas, uma cruz de peanha e invocação em latim, cuja tradução “Libertai-nos de todo o mal”, num apelo ao poder dos sinos, que depois de abençoados no cerimonial da sagração (a partir do Papa João XIII) passam a “res sacra” ou objectos sagrados com o poder de protecção das comunidades e lugares.

Por último o quarto sino, fundido no ano de 1943 na Fundição de sinos da Boca da Mata-Alvaiázere, e será compreensível a falta de imparcialidade do analista, é de todos o sino mais belo. É o único sino que tem rendilhas ornamentais, de tipo vegetalista, duplas rendilhas que formam uma faixa com a inscrição em latim “Ecce Deus Salvatore Meos” cuja tradução “Eis aqui Deus o meu Salvador” significa uma declaração de fé e pedido de protecção, tem ainda como elementos iconográficos uma cruz apoiada em nicho estilizado, contendo o sinete da fundição e data de fabrico.

Uma sucinta nota sobre a Fundição de sinos da nossa terra que constitui memória e legado para Alvaiázere. A Fundição de sinos da Boca da Mata- Alvaiázere, distrito de Leiria, foi fundada em 1899 por António Alves Ferreira e premiada em 1927 com medalha de prata na Exposição Industrial de Caldas da Rainha. Seguindo uma prática secular na Europa, os artífices sineiros transmitiam na família os segredos da arte, também aqui ocorreu a continuidade da laboração transmitida pelo Mestre a seus netos José e António Alves Simões e com a morte súbita deste, no ano de 1962, cessou a fundição. A laboração decorreu por mais de 60 anos e saídos desta fundição encontram-se obras espalhadas por todo o território nacional, da Beira Alta ao Algarve, Angola, Cabo Verde e Moçambique, localizada em templos como o Santuário do Senhor Jesus dos Milagres, a Igreja Nossa Sr.ª das Misericórdias em Castelo, Ourém (sino com 700 Kg de peso), dois sinos na Torre de Dornes, sinos em todas as Igrejas do concelho de Alvaiázere, com excepção da Igreja de Maçãs de Caminho, e naturalmente com maior predominância nas Igrejas das Dioceses de Leiria e Coimbra.

Sobre o acervo desta fundição temos cerca de 150 sinos inventariados, obras reconhecidas como emblemáticas, cujo património tem vindo a ser apresentado em inúmeros congressos nacionais e internacionais de História e Património Cultural.

Impõe-se uma referência ao relógio da torre, uma preciosa peça a musealizar e colocada agora no coro da Igreja. O relógio tem a data de 1639 e teve proveniência do Convento de Santa Cruz do Bussaco, da Ordem dos Carmelitas Descalços, os monges autores da florestação da Mata do Bussaco, local onde tinha existido um eremitério Beneditino no séc. VI. O relógio é uma obra datada do período de Filipe III e tem a inscrição na chapa “ Quem desarmar este relógio advirta nos pontos não o bote a perder”. Com base em artigo de grande figura de cultura da época, Mário de Castro Rosa, em Julho de 1926, no Alvaiazerense (ano I nº 2), sobre o relógio afirma que “serviu aos frades do Buçaco para lhe anunciar as horas de elevação do espírito em Deus e veio para Alvaiázere em 1837”.

No ano de 1834 tinham sido extintas as Ordens Religiosas e com a extinção destas estava impedida a laboração ocasional e “itinerante” das fundições de sinos entre muros dos conventos, o que favoreceu no final de 1800 o aparecimento de algumas fundições fixas, designadamente a de Alvaiázere. No frontão da Igreja Matriz inscrito o ano de 1810, teriam ainda que decorrer mais de duas décadas para chegar o relógio e a sonoridade das horas.

Graças ao mérito dos nossos Mestres fundidores de sinos, também somos conhecidos por “Alvaiázere a Terra dos sinos”. Que os sinos dourados repiquem de alegria no coração de todos os Alvaiazerenses, com paz e progresso.

 

Maria Adelaide Furtado

Presidente da Al-Baiäz e Vice-Presidente (AG) da Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial

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