José Baptista

No início de cada ano, é costume formularem-se desejos de dinheiro e saúde. Se, para o primeiro, é fundamental trabalho e sorte, para o segundo, para além de sorte e dinheiro é, por vezes, suficiente fechar um pouco a boca.

Talvez com a melhor das intenções, num ímpeto legislador e reformista, o governo decidiu controlar o que um cidadão, supostamente livre, deve consumir, elaborando para tal uma longa lista de alimentos, cerca de 60, desde as pizzas ao pastel de bacalhau, passando pelo pastel de nata ou pelo chouriço.

NOITE DE ANJOS

O carro, vagarosamente, percorria a estrada que serpenteava a serra, enquanto os velhos faróis cortavam, com dificuldade, as neblinas que bafejavam os vales. As árvores, vestidas de branco, pareciam fantasmas que, aos olhos do petiz, abriam a porta ao mundo da fantasia.

Ao chegar a casa dos avós maternos, e após o primeiro impacto que lhe tolhera os sentidos, o alçapão da curiosidade abriu-se e, sempre ancorado no olhar do avô José, que não o largava por um segundo, depressa começou a esquadrinhar tudo em redor.

Começou a chover. Ainda bem. Depois de uma época de incêndios, que ceifou quase uma centena de vidas, esperemos que esta venha de mansinho. Sim, de mansinho, primeiro para não erodir as terras e, em segundo, de forma a evitar catástrofes como a ocorrida há 50 anos (em 1967) em que morreram mais de 500 pessoas vítimas da fúria das águas.

Que venha de mansinho e durante muito tempo!

Para já, se se mantiver, vai permitir que haja queima do madeiro, forma tradicional de, em muitas terras, festejar o Natal.

“Outubro quente traz o diabo no ventre.” É assim que o povo, na sua imensa sabedoria, sinaliza o mês que agora acaba.

Este ano, tem-se revelado extraordinário. Extraordinário pelas altas temperaturas e seca extrema em quase todo o país, pela tragédia que a todos enlutou e, até, pelo facto de, pela primeira vez, um primeiro-ministro de Portugal ser acusado de uma série de crimes.

Assim, lembrei-me de escrever um ou dois apontamentos sobre este mês que deve o seu nome à palavra latina octo (oito), dado que era o oitavo do calendário romano, que começava em março.