PROPRIEDADE: CASA DO CONCELHO DE ALVAIÁZERE
DIRECTOR-ADJUNTO: CARLOS FREIRE RIBEIRO
DIRECTOR: MARIA TEODORA FREIRE GONÇALVES CARDO
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Alvaiázere de mãos dadas com a Arqueologia

Em Alvaiázere Seminário “O Património Arqueológico”

31 de Janeiro de 2021

No dia 22 de janeiro realizou-se mais um evento de discussão científica sobre o Património Arqueológico de Alvaiázere, num Seminário intitulado O Património Arqueológico da Pré-História à Época Clássica, que foi promovido e organizado pelo Instituto Politécnico de Tomar, Museu Municipal de Alvaiázere, CAA Portugal e Universidade Autónoma de Lisboa. Assim este Seminário abriu as suas portas digitais a todos os participantes, para uma conversa sobre a riqueza que o nosso concelho guarda sobre a nossa identidade, história e cultura.

Tal como ocorre todos os anos, a equipa de arqueólogos que estuda o concelho de Alvaiázere reuniu-se, juntamente com outros investigadores, desta vez, à distância, por videoconferência, para apresentar à população, os resultados das investigações em curso. Em destaque estiveram os trabalhos desenvolvidos no ano de 2019 e 2020, bem como as inúmeras cooperações internacionais na deteção e estudo dos vestígios que Alvaiázere encerra.

O Projeto MEDICE, tal como é designado, integra uma vasta equipa, de portugueses, mas também de membros provenientes do Brasil, América e Holanda, que tem desenvolvido as suas pesquisas em diversos sítios arqueológicos para dar um retrato fiel do que terá sido a ocupação da Pré-história à Época Clássica. Entre os locais assinalados, tornou-se notório o sítio do Algar da Água, localizado na serra de Alvaiázere, por ser o único sítio conhecido, em Portugal, com arte rupestre filiforme (incisões finas) da Idade do Ferro dentro de uma cavidade, bem como o extraordinário Complexo Megalítico e de Arte Rupestre de Rego da Murta, com a presença de 14 locais arqueológicos, entre espaços de enterramento, de culto e com presença de rituais associados à Pré-história.

O Seminário, iniciou-se com uma apresentação da Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Alvaiázere, Silvia Lopes, com o título Política Cultural e Arqueológica Interventiva na Região de Alvaiázere, onde demonstrou o interesse e a aposta que o município tem realizado ao longo dos vários anos. Esta consciência da importância cultural do concelho, sobretudo explanada nas ocupações dos períodos Pré-histórico e Romano, relativamente ao contexto nacional, tem sido incrementada por todos os intervenientes, inclusive na renovação da exposição arqueológica do Museu Municipal de Alvaiázere, dando uma perspetiva geral sobre as antigas populações que habitaram este espaço.

Após esta seguiram-se quatro sessões de discussão, onde vinte investigadores evidenciaram, dentro de várias áreas, o valoroso património concelhio. Neste âmbito os organizadores tiveram como objetivo primordial, “consciencializar a população local para o fantástico património arqueológico. Só podemos salvaguardar o que se conhece e convêm que toda a população percecione que chegamos aqui com um passado. Esse passado é-nos revelado pelos restos que os nossos antepassados deixaram para trás. Como herdamos uma casa de nossos pais, herdamos uma história, desenvolvida pelo que nos antecederam e que faz parte de nós. Ao pertencer a todos, todos somos responsáveis pela sua proteção” referiu a Coordenadora do Projeto MEDICE e Investigadora do Instituto Politécnico de Tomar, Alexandra Figueiredo, “Os resultados, tal como os achados, são reveladores deste nosso passado e é este o objetivo que se pretende, não só uma discussão entre especialistas, mas também dar a conhecer à população local”, completou o Conservador do Projeto e Diretor do CAA Portugal, Cláudio Monteiro.

As quatro sessões apresentadas: primeira - Seguindo os passos dos nossos antepassados da Pré-história à Antiguidade Clássica em Alvaiázere; segunda - Educar para Proteger; terceira - A multidisciplinaridade - Um caminho para um fim e quarta - Do campo ao laboratório, são o exemplo do percurso de estudo que se tem realizado nos últimos anos e pelo qual um sítio arqueológico passa desde a sua descoberta até ao Museu. Estes trabalhos, ainda que tenham sido iniciados há 23 anos, tal como foi mencionado pela Vereadora da Cultura da CMA, Silvia Lopes, e que, em parte, alguns achados são visíveis na exposição do Museu Municipal, como mencionou a Diretora do Museu, Paula Cassiano, são fruto de um investimento de competências de diversos especialistas. Entre as várias comunicações de foro arqueológico, resultantes do estudo de campo e laboratório dos sítios, foram apresentadas outras, de caracter interdisciplinar, de estudos complementares para a compreensão das comunidades que ocuparam esta região, quer a nível genético, pela análise de diversas amostras de ossos de animais exumados dos sítios arqueológicos, flora e sedimentos locais, água de fontes e dados provenientes dos restos humanos descobertos, realizado em parceria com diversas universidades e laboratórios americanos, que denotam, como menciona a Investigadora, Anna Waterman, da Mount Mercy University (EUA) “a presença de uma comunidade mista, isto é que cresceu na localidade e outra que aqui chegou proveniente de outra zona geológica” e se juntou a esta e aqui foi enterrada conjuntamente com os autóctones durante a Pré-história; as várias datações absolutas em laboratórios de especialidade, que permitem traçar um quadro cronológico e cultural fino para estes períodos, conforme informação da Investigadora, Alexandra Figueiredo, o aprofundamento das pesquisas para as reconstituições paleodemográficas (população antiga) e paleoambientais (paisagem antiga), que revelam que estamos perante comunidades bem nutridas, com pouco stress alimentar, que habitavam diversos espaços, sobretudo naquela época (do 3º milénio à fixação dos romanos), numa paisagem aberta de pinheiros, repleta de animais de pequeno a grande porte, desde lebres, javalis e cervos.

O investigador Anderson Tognoli, do MAE - Universidade de São Paulo, esclarece que: “se denota, nos estratos arqueológicos, uma fauna diversificada, quer a nível ritual, quer de consumo, havendo em ambos os períodos (Pré-história e Romano) uma preferência pela opção de caça de lebres e coelhos, a par, de uma percentagem mais reduzida, de cervos e javalis”.

A equipa de arqueólogos, conforme as circunstâncias da pandemia, têm dado continuidade aos trabalhos em laboratório de arqueologia e conservação do património subaquático (LABACPS), instalado na antiga escola Cesário Neves de Alvaiázere, e cedido ao Instituto Politécnico de Tomar. Este posto avançado dos trabalhos tem recebido diversos alunos dos cursos superiores de arqueologia, dando lugar a que somente no ano passado tenham sido apresentados cinco teses de especialização, com base nos estudos realizados na região, quer nas universidades portuguesas, quer nas estrangeiras. Uma dessas alunas, Sandra Peliano, apresentou um vídeo https://www.youtube.com/watch?v=9kfafWUwHIk, e referiu “a região de Alvaiázere possui um património vastíssimo a investigar, convém desenvolverem-se as ferramentas educacionais, que permitam também ao público compreender não só o que Alvaiázere possui, mas o esforço, dedicação e trabalho que implica à ciência da Arqueologia e aos arqueólogos fazer, para que o processo seja efetivo e as zonas com vestígios arqueológicos salvaguardados.”

Do Seminário foi ainda expresso a publicação de dois livros, um sobre o sítio arqueológico do Algar da Água, que será brevemente apresentado ao público e estará disponível para consulta e aquisição no Museu Municipal de Alvaiázere e outro referente ao Complexo Megalítico de Rego da Murta, previsto para ser lançado até ao final do ano.

No seminário estiveram presentes diversas pessoas da comunidade política, interventiva e ativa local, incluindo alguns alunos, jovens alvaiazerenses, interessados em aprofundar o conhecimento sobre o passado da sua terra.

Na sequência deste Seminário foi lançado um desafio para a abertura de uma nova rúbrica no nosso jornal, com o objetivo de ficarmos a conhecer Alvaiázere pelo seu passado arqueológico.” Assim, esta foi a proposta que lançamos ao Instituto Politécnico de Tomar e ao projeto MEDICE para, durante este ano 2021, nos falarem sobre os sítios arqueológicos da região, as descobertas e os resultados. A proposta foi aceite, o que desde já agradecemos, e contribuirá, para colmatar o vazio nesta área sobre o nosso passado mais remoto.

A rúbrica, intitulada “Escavar o passado de Alvaiázere” inicia-se já nesta edição do mês de janeiro, na página 14, com a docente do Instituto Politécnico de Tomar, Alexandra Figueiredo, investigadora e coordenadora do projeto, que irá mostrar-nos o sítio arqueológico do Algar da Água, localizado na serra de Alvaiázere.

Teodora Cardo

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