No dia três de setembro, em Lisboa, o país foi abalado por mais uma tragédia, de que resultaram 16 vítimas mortais e vários feridos, devido ao descarrilamento e destruição de uma das cabinas do centenário Elevador da Glória que liga a praça dos Restauradores ao Bairro Alto.
Como é habitual em casos como este, as causas do acidente estão a ser investigadas pelas entidades competentes e serão conhecidas detalhadamente daqui a algum tempo, impondo-se tomar as medidas correctivas e preventivas que obstem à repetição de novo e semelhante sinistro.
Porém, de acordo com uma Nota Informativa do GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Ferroviários), as causas do acidente terão sido devidas ao desprendimento do cabo que liga as duas cabinas do elevador – a que desce e a que sobe, servindo-lhes de contrapeso – para isso tendo contribuído, decisivamente, o facto de o referido cabo, antes integralmente de aço, ter sido substituído há seis anos pelo actual em que o seu núcleo (alma) passou a ser de fibra.
Segundo especialistas do IST (Instituto Superior Técnico), citados pelo “EXPRESSO”, este cabo ter-se-á deformado no acto de amarração ao trambolho e continuou a deformar-se posteriormente, ao longo do tempo de uso, tendo perdido volume e vindo a soltar-se do referido trambolho aquando do acidente.
Para além do cabo se ter solto, verificouse também uma falha dos travões, accionados pelo maquinista, pese embora o sistema de travagem, por si só, isto é, sem o cabo estar ligado, não tivesse capacidade suficiente para imobilizar as cabinas em movimento.
O Elevador da Glória é património da CARRIS, empresa municipal que tem a responsabilidade de o bem gerir, sendo a mesma tutelada politicamente pela CML (Câmara Municipal de Lisboa) que, em sentido amplo, integra o Estado a quem compete velar pela satisfação das necessidades colectivas e bem estar dos cidadãos.
Ora, a avaliar pelo que consta da Nota Informativa do GPIAAF e sem prejuízo do que vier a constar do respectivo Relatório Final ao acidente, parece que nem a CARRIS, nem a CML agiram com o zêlo e a competência exigíveis para que o Elevador da Glória funcionasse com segurança e eficiência.
Desde logo porque a troca do cabo primitivo por outro diferente exigiria mais amplo estudo, verificação e acompanhamento regular do sistema de amarramento do mesmo ao trambolho, por forma a avaliar e verificar, periodicamente, o seu estado, comportamento e resistência.
Depois porque se o sistema de travagem, apesar de accionado pelo maquinista, era incapaz para imobilizar a cabina, estando solto o cabo que a ligava à outra, para que servia, afinal, tal sistema?
Isto para já não falar das dúvidas decorrentes das inspecções visuais, a última das quais, realizada na madrugada do dia do acidente com a duração de 33 minutos, deu a máquina como operacional e depois aconteceu o desastre.
Parecem dúvidas e perplexidades suficientes para concluir que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, responsável pela tutela da CARRIS, ao invés de fazer de conta de que não se passou nada e de, vitimizando-se, tentar desviar atenções para casos passados, deveria assumir a responsabilidade política pelo acontecido e demitir-se.
Não o tendo feito, o julgamento sobre a sua capacidade para continuar a gerir a CML caberá aos eleitores de Lisboa no sufrágio eleitoral de dia 12 de outubro.