A loja Zé Móveis, em Cabaços, escapou a prejuízos elevados em mercadoria durante as últimas tempestades, mas o futuro do negócio está longe de estar garantido. A cobertura do edifício ficou seriamente danificada e, sendo um espaço arrendado, a resolução depende da proprietária, que, segundo o empresário, não demonstra intenção de avançar com obras e pondera vender o imóvel.
“Eu não tive prejuízo ao nível do material. Logo de madrugada vim para aqui e comecei a tirar tudo. Só tenho o piso de rés-do-chão alugado e consegui salvaguardar praticamente tudo”, explica José Pedro, conhecido na vila como Zé dos Móveis.
Os danos concentram-se sobretudo na cobertura e nas infiltrações. A água entra pela caixa do elevador e pela escada. “Isto já não estava grande coisa e agora está muito pior. Estou aqui a trabalhar quase como num barracão”, descreve.
Apesar das dificuldades, o empresário continua a pagar a renda e todas as despesas fixas. “Ninguém me disse para não pagar. Tenho segurança social, fornecedores, contas para liquidar. Quem tem negócio sabe como isto funciona”.
STOCK SALVO, MAS ATIVIDADE CONDICIONADA
Grande parte do material foi retirado da loja e armazenado na própria habitação do empresário, que não tem seguro. “Tenho carradas de material em casa. Quando vem um cliente, ou vou buscar, ou mostro fotografias. Não posso ter aqui o stock que tinha antes”.
Desde a tempestade, o movimento caiu. Alguns clientes desistiram ou pediram facilidades de pagamento, também eles afetados por prejuízos avultados nas suas casas. “Ainda esta semana um cliente pediu para pagar em duas vezes. Estamos cá para nos ajudar uns aos outros”.
O impacto é visível. Muitas famílias do concelho enfrentam despesas de milhares de euros em telhados, chapas e estruturas arrancadas pelo vento. Segundo relata, há orçamentos que passaram de cinco para sete mil euros em poucos dias. “Há coisas a disparar muito depressa. Acho que há quem se esteja a aproveitar da situação”.
José Pedro faz questão de sublinhar que continua a fazer orçamentos gratuitamente, apesar de já ter ouvido relatos de comerciantes que cobram 50 euros apenas para entregar um orçamento. “Se eu pedisse 50 euros por cada orçamento que fiz nestas semanas, já tinha aqui um ordenado. Estamos a falar de pessoas que já perderam muito”.
OBRAS PODEM ULTRAPASSAR 20 MIL EUROS
A reparação da cobertura poderá rondar os 20 mil euros. Um valor incomportável para quem não é proprietário do edifício e já atravessava um período de recuperação financeira. “Há um ano e tal tive um AVC, que me obrigou a ter isto fechado algum tempo enquanto recuperava. Agora acontece isto”.
O dono do imóvel faleceu e o prédio está nas mãos da viúva e dos filhos, que, segundo o empresário, não têm seguro e estarão mais inclinados a vender. A localização central e a dimensão do espaço elevam o valor pedido. “Nesta altura da vida não me vou meter a comprar um edifício por um preço muito elevado e ainda gastar uma fortuna em obras”.
A incerteza instala-se. “Se ela não reparar isto, para onde é que eu vou agora com este material? Onde é que eu tenho espaço para trabalhar? Se não tiver onde trabalhar, a firma acaba”.
APOIOS COM MAIS EXIGÊNCIAS
O empresário candidatou-se aos apoios anunciados após a tempestade, mas diz que o processo se tornou mais burocrático. “Inicialmente falava-se que até cinco mil euros não era preciso orçamento. Agora já pedem papéis, orçamentos. Acho que não estavam à espera de tantas candidaturas”.
Em paralelo, também a sua habitação sofreu danos significativos, com cerca de 200 telhas partidas e painéis solares arrancados.
Com 54 anos, José Pedro admite nunca ter visto nada assim no concelho. “Isto foi uma tragédia. Vai demorar anos a recuperar. Há empresas que ainda estão a pensar se vale a pena investir outra vez, sobretudo quem já está perto da reforma”.
UM RETRATO DA REALIDADE LOCAL
O caso de José Pedro reflete uma preocupação mais ampla no concelho de Alvaiázere. Pequenas empresas, muitas delas familiares, trabalham com margens reduzidas e dependem do espaço físico para garantir rendimento. Sem instalações seguras, não há produção, não há vendas e os postos de trabalho ficam em risco.
Ao mesmo tempo, escasseia a mão de obra e multiplicam-se os relatos de aumentos de preços em materiais e serviços.
José Pedro mantém a porta aberta e a esperança intacta. “Gosto do que faço. Só precisava que isto ficasse minimamente tapado para poder continuar a trabalhar”.
Em Cabaços, como noutras freguesias do concelho, a recuperação faz-se dia a dia. Para muitos comerciantes, mais do que os estragos visíveis, o maior desafio é a incerteza sobre o que vem a seguir.

