O presidente da República, António José Seguro, visitou o concelho de Alvaiázere, no passado dia 9 de abril, no âmbito da presidência aberta dedicada aos concelhos afetados pelo “comboio de tempestades” de janeiro e fevereiro. Foi o quarto dia de uma iniciativa que terminou no dia seguinte e que o levou a percorrer vários territórios do interior fustigados pelos temporais.
Em Alvaiázere, a visita começou no Parque Botânico da Mata do Carrascal, onde o presidente da Câmara, João Paulo Guerreiro, mostrou ao chefe de Estado uma pequena amostra da destruição causada pelas tempestades. Em vários troços da mata, o caminho ficou reduzido a um carreiro por onde só passa uma pessoa de cada vez, tal a quantidade de árvores caídas. Outras foram arrancadas pela raiz.
No meio da devastação, um moinho resistiu intacto. Reconstruído em 2021 exatamente no mesmo local onde décadas antes foi construído outro da mesma tipologia, que com o tempo foi ficando degradado. O engenho mantém uma particularidade: toda a estrutura pode rodar para melhor aproveitar o vento. João Paulo Guerreiro explicou ao presidente da República que a reconstrução respeitou “exatamente” o modelo original, em madeira.
PAVILHÃO SERVIU DE “QUARTEL-GENERAL”
A visita prosseguiu para o Pavilhão Desportivo de Alvaiázere, e não foi por acaso. Foi ali que o município instalou, durante as semanas mais críticas, uma zona de concentração e apoio à população e, na parte de baixo do edifício, instalações provisórias do Centro de Saúde, que ficou inoperacional durante cerca de duas semanas.
“Tivemos picos com mais de 50 pessoas em simultâneo aqui. Foram muito bem atendidas, muito bem cuidadas, de uma forma muito profissional, muito humana e muito digna”, afirmou João Paulo Guerreiro, acrescentando que mais de 120 pessoas passaram pelo espaço. O autarca garantiu que foi possível “arranjar soluções de habitação para todas as famílias”.
Um dos casos presentes na sala foi o de Tiago Gomes e a sua família, cuja casa ficou destruída. Apesar disso, o homem, que trabalha na área da madeira, nunca parou: durante semanas saiu de manhã e regressou à noite, ajudando na desobstrução de vias e no arranjo de casas de outros alvaiazerenses. “São um exemplo de resiliência e de força”, disse o presidente da câmara.
“DESEJAMOS QUE NÃO VOLTE A ACONTECER”
António José Seguro sublinhou que a presidência aberta existe precisamente para ouvir antes de falar. “Esta presidência aberta faz com que o Presidente da República venha ouvir e não falar. Eu gosto de falar depois de ouvir, depois de aprender”, disse, num discurso muito curto.
O presidente da República lançou um desafio às dezenas de pessoas presentes na sala: imaginar o que teria sido a resposta às tempestades sem as juntas de freguesia nem as câmaras municipais. “É precisamente nestes momentos que nós temos que perceber a importância do poder local, porque ele é a primeira ajuda”, afirmou, reconhecendo que muitas das tarefas assumidas pelos autarcas estão fora do âmbito formal das suas competências, “mas está no âmbito do seu coração e do cuidado às populações”.
Referiu ainda que muitos autarcas não recebem qualquer remuneração pelo trabalho que desenvolvem. Todavia foram “determinantes” para “minorar a aflição e minorar esta tragédia”. Agora, “o que todos nós desejamos é que não volte a acontecer. Que seja apenas um pesadelo que fique apenas na memória e já tem um peso muito grande”.
O VERÃO JÁ PREOCUPA
Nas palavras trocadas durante a visita ao parque botânico, João Paulo Guerreiro transmitiu ao presidente da República as preocupações que já olham para os próximos meses. “Uma das nossas preocupações é com o verão quente, nós vamos fazer todos os esforços para não sofrer mais uma tragédia”, disse o autarca, numa referência ao risco de incêndio que se avizinha com as temperaturas mais elevadas.
O presidente da República pegou nessa preocupação no seu discurso. “Vamos entrar numa altura muito crítica em termos de temperaturas elevadas e isso propicia sempre incêndios”, alertou, apelando a que cada cidadão faça a sua parte quando frequenta florestas e matos.
António José Seguro deixou também uma nota sobre o parque botânico, que não conhecia e que visitou pela primeira vez: “espero que rapidamente encontrem soluções para limpar este parque, para limpar os nossos caminhos florestais, para limpar os nossos concelhos”.
METADE DO CONCELHO SEM INTERNET
Uma das preocupações mais prementes transmitidas por João Paulo Guerreiro ao chefe de Estado foi a situação das telecomunicações. “Temos cerca de metade do concelho sem acesso à internet”, afirmou o presidente da câmara, sublinhando o impacto da falta de comunicações num concelho “que assenta a sua estratégia de crescimento em grande parte na atração de nómadas digitais e pessoas em teletrabalho”.
O autarca criticou a resposta das operadoras e da entidade reguladora. “Infelizmente não estamos a ver, quer das operadoras, quer da entidade reguladora, a ANACOM, nenhuma atenção especial”. Segundo João Paulo Guerreiro, estão a ser recuperadas entre 20 e 30 ligações por dia, mas “de forma precária, porque as linhas são ligadas, mas não são colocados postes”, o que significa que quando se avança na desobstrução dos caminhos florestais, as linhas voltam a ser cortadas.
“UNIDOS DEMOS UMA RESPOSTA BASTANTE POSITIVA”
O edil alvaiazerense aproveitou o momento para agradecer publicamente a todos os que estiveram na linha da frente: os presidentes de junta de freguesia, que “foram os primeiros a sinalizar e dar orientações no terreno”; os funcionários da câmara; os Bombeiros Voluntários de Alvaiázere, que, nas suas palavras, “foram incansáveis e ficaram tempo demais sozinhos, ficaram até à exaustão”; o Exército, que “só saiu quando não havia mais missões”; a GNR; a Proteção Civil; e empresas, que destacou “duas em particular”: a Ascendi e a Odraude.
A Ascendi, concessionária com infraestruturas no território, “foi extraordinária” e “provou ser uma parceira ao mais alto nível”. E o empresário da construção civil Eduardo Marques, fundador da Odraude, colocou a sua equipa ao serviço dos alvaiazerenses e “andou em cima de muitos telhados a ajudar muitos alvaiazerenses, apesar da sua idade”.
“Como se provou no combate a esta tempestade, todos os que estão aqui, unidos conseguimos dar uma resposta que achamos bastante positiva ao impacto devastador deste comboio de tempestades que nos assombrou”, sublinhou o autarca. Portanto, aqui está “a prova de que a coesão, quando é levada a sério e quando é posta em prática, é um mecanismo que faz com que todos sejam beneficiados”.
Ao presidente da República, João Paulo Guerreiro agradeceu a visita e apelou para que “não se esqueça do Portugal mais interior”, para que “nos permita a todos, de norte a sul, das cidades às aldeias, dos mais ricos aos menos ricos, estarmos mais coesos e mais apoiados”. E terminou a sua intervenção deixando votos de que “a sua influência possa ajudar esta região, que foi devastada, e em particular o concelho de Alvaiázere”.


desalojada como “exemplo de resiliência”

suas preocupações ao chefe de Estado


