PROPRIEDADE: CASA DO CONCELHO DE ALVAIÁZERE

DIRECTOR: MARIA TEODORA FREIRE GONÇALVES CARDO

DIRECTOR-ADJUNTO: CARLOS FREIRE RIBEIRO

Sequestrado em Alvaiázere e abandonado numa encosta após horas de terror

JOVEM DE 21 ANOS VIVEU HORAS DE TERROR ENTRE ALVAIÁZERE E FERREIRA DO ZÊZERE

Um jovem alvaiazerense foi sequestrado à entrada da vila de Alvaiázere por três homens armados, mantido em cativeiro numa carrinha durante quase duas horas e meia, obrigado a entregar todo o dinheiro que tinha e abandonado no escuro numa zona isolada entre Águas Belas e Peralfaia, no concelho de Ferreira do Zêzere. Três suspeitos já foram detidos e estão associados a outros casos idênticos.

Era uma noite de férias como tantas outras. Miguel (nome fictício), 21 anos, morador em Alvaiázere, saiu de casa por volta das 23h30 de 30 de março para ir tomar café com um amigo no Balas. Fazia aquele percurso a pé com regularidade, àquela hora. Não notou nada fora do comum até ser demasiado tarde.

Quando caminhava entre as fábricas e as bombas de gasolina, uma carrinha BMW cinzenta escura atravessou-se à sua frente e bloqueou o caminho. Saíram três homens, com idades aparentes entre os 25 e os 35 anos. Todos usavam máscara de proteção COVID, chapéu ou capuz.

ARMA DE FOGO À CABEÇA, FACAS NA BARRIGA E NO PESCOÇO

Um dos assaltantes encostou-lhe uma arma de fogo à cabeça. Os outros dois apontaram-lhe facas, uma à barriga e outra ao pescoço. Bateram-lhe. “Deram-me algumas ‘chapadas’, murros e coronhadas na parte de trás da cabeça”, recorda. “Ameaçaram que me matavam, exigindo que entregasse tudo o que tinha na minha posse”.

Sob ameaça de uma arma de fogo, foi empurrado para o banco traseiro do veículo. A partir desse momento, a sua vida ficou nas mãos de três desconhecidos.

DUAS HORAS E MEIA EM CATIVEIRO

A carrinha arrancou. Miguel foi levado desde Alvaiázere até Cabaços, depois até Águas Belas e, por fim, até um eucaliptal antes de Peralfaia. Durante todo o trajeto, as ameaças não pararam. “Em determinados momentos chegaram mesmo a brincar com a arma contra a minha cabeça, num clima de terror constante”, conta. “Durante a maior parte do assalto senti que a minha vida estava em sério risco”.

Ao longo dessas quase duas horas e meia, os assaltantes foram mais longe do que o roubo imediato. Quiseram tudo o que tinha e ainda mais.

OBRIGADO A ESVAZIAR AS CONTAS BANCÁRIAS E A PEDIR DINHEIRO

Com a cabeça encostada à janela do carro e sob “ameaça constante das facas e da arma de fogo apontada à cabeça”, Miguel foi obrigado a levantar todo o dinheiro que tinha disponível nas suas contas bancárias. Os movimentos foram feitos na máquina de multibanco da Junta de Freguesia de Águas Belas.

Não ficou por aqui. Os assaltantes obrigaram-no também a contactar amigos e familiares durante a noite, forçando-o a pedir mais dinheiro por transferência via MB Way, por código de levantamento e por transferência imediata. Pessoas que do outro lado da linha não faziam ideia do que estava a acontecer.

No total, Miguel estima que os prejuízos se situem entre os 1.400 e os 1.800 euros, incluindo o telemóvel e o relógio que lhe foram roubados.

“CONTOU 1… 2… E NO 2 ATIREI-ME PELA ENCOSTA ABAIXO”

Por volta das 2h30 da manhã, a carrinha parou numa zona isolada nas proximidades de Peralfaia. Um dos assaltantes colocou Miguel na berma da estrada, com uma encosta de eucaliptos à sua frente, no escuro total. Disse-lhe que ia contar até três e que ao três devia correr.

Miguel não esperou. O assaltante “contou 1… 2… e no 2 atirei-me pela encosta abaixo”. “Não fui empurrado. Lancei-me pela encosta por iniciativa própria para tentar escapar”, explicou.

Caiu. Magoou a anca e o braço, mas sem gravidade. Quando conseguiu levantar-se, ouviu os assaltantes a chamá-lo e voltou a atirar-se para o chão para se esconder. Só quando ouviu o carro a arrancar é que se levantou e começou a escalar a encosta de volta à estrada.

Não tinha telemóvel. Não tinha dinheiro. Não sabia ao certo onde estava.

40 A 50 MINUTOS A PÉ NO ESCURO ATÉ ENCONTRAR UMA LUZ ACESA

Miguel caminhou durante 40 a 50 minutos, sem direção definida, à procura de sinais de vida. Quando chegou a uma pequena localidade, reparou que as luzes de uma garagem estavam acesas. Subiu pelo jardim e pediu socorro.

O dono da casa, surpreendido com aquela presença a horas tão tardias, foi à rua, ouviu os pedidos de ajuda de Miguel, fez algumas perguntas e não hesitou. Fechou a garagem e ajudou o jovem a contactar os pais.

A mãe de Miguel, assim que soube do sucedido, ligou de imediato à GNR de Alvaiázere, que chamou a PJ.

“NÃO ALTEREI NADA NA MINHA ROTINA”

Apesar das horas de terror que viveu, para Miguel o maior dano foi financeiro. Mas há outro que pesa de forma diferente. “Vivemos numa terra pequena, onde este tipo de situação rapidamente se torna conversa e ‘entretenimento’, às vezes malévolo, o que também não ajuda”.

Apesar de tudo, Miguel não mudou a sua rotina. E a preocupação que manifesta vai além do que lhe aconteceu naquela noite. “Sinto-me preocupado com o estado da nossa sociedade em geral, e em particular quanto à segurança, não apenas por causa do que me aconteceu, mas porque olho à minha volta e vejo sintomas de uma sociedade ‘doente’”. Com 21 anos, “preocupa-me genuinamente o futuro que temos pela frente e o que nos espera”.

Miguel foi, entretanto, informado pelo Ministério Público de que três suspeitos foram detidos. Estão associados não apenas ao caso de Alvaiázere, mas a outros crimes similares. “Espero agora que o processo judicial siga o seu curso e que seja feita justiça, não só no meu caso, mas também em relação às restantes vítimas que passaram por situações similares”, afirma.

Não recebeu acompanhamento médico nem psicológico, mas os inspetores da Judiciária foram “um grande auxílio” para Miguel para lidar com o que viveu e “superar psicologicamente a situação”.

PJ DETEVE SUSPEITOS E LIGA CASO A OUTROS CRIMES NA REGIÃO

A Polícia Judiciária confirmou a detenção de três homens suspeitos de vários crimes violentos, incluindo roubo com arma de fogo, sequestro e uso abusivo de meios de pagamento. Em comunicado, a PJ refere que as detenções ocorreram “em cumprimento de mandados de detenção emitidos pelo DIAP de Leiria”.

A investigação teve origem num caso anterior. Segundo a PJ, tratou-se de “uma investigação iniciada no passado dia 29 de março, respeitante a uma ação violenta levada a cabo por dois homens” em Pelariga, no concelho de Pombal.

Dois dias depois, os mesmos suspeitos terão atuado em Alvaiázere. A autoridade explica que “estes mesmos dois suspeitos, com um terceiro elemento, praticaram outro crime da mesma natureza na localidade de Alvaiázere, forçando, desta feita, um homem (…) a entrar na viatura em que se faziam transportar”. Acrescenta ainda que “obrigaram-no, posteriormente, a levantar cerca de 900 euros em caixas ATM, e roubaram-lhe cartões bancários, um relógio antigo e um telemóvel”.

O grupo é suspeito de vários outros crimes. A PJ indica que, após esses episódios, “o grupo dividiu-se, passando dois dos suspeitos a atuar na zona de Leiria, onde praticaram nos dias 6 e 8 de abril mais quatro roubos”.

A detenção dos suspeitos resultou de uma operação articulada entre forças de segurança. Um deles foi capturado após uma perseguição policial, quando “elementos do Comando Distrital da Polícia de Segurança Pública, com o apoio da vítima, localizaram os suspeitos em fuga, movendo-lhes uma longa perseguição”.

No decurso da investigação, foram recolhidas provas consideradas relevantes. A PJ refere que “foram apreendidos importantes elementos de prova, que permitiram correlacionar os suspeitos com a prática dos factos, nomeadamente uma reprodução de arma de fogo e o relógio subtraído a uma das vítimas”.

Quanto às medidas aplicadas, “dois dos detidos, com 27 e 37 anos, foram já sujeitos à medida de coação de prisão preventiva”. O terceiro suspeito, com 35 anos, “será presente às autoridades judiciárias para primeiro interrogatório”.

A Polícia Judiciária acrescenta ainda que os três homens “possuem antecedentes relacionados com criminalidade violenta e grave e tráfico de estupefacientes”.

Carina Gonçalves