PROPRIEDADE: CASA DO CONCELHO DE ALVAIÁZERE

DIRECTOR: MARIA TEODORA FREIRE GONÇALVES CARDO

DIRECTOR-ADJUNTO: CARLOS FREIRE RIBEIRO

Casa destruída, família desalojada e um recomeço forçado em Alvaiázere um mês depois da noite de terror

TEMPESTADE KRISTIN MUDOU-LHES A VIDA NUMA MADRUGADA

Vera Santos, Tiago Gomes e os dois filhos de 7 e 13 anos viram a vida mudar em poucas horas. A casa onde viviam, em Maçãs de D. Maria, ficou inabitável. Hoje está coberta por uma lona, sem condições para regressar. Lá dentro ficou praticamente tudo o que construíram ao longo dos anos.

Primeiro o vento da tempestade Kristin. Violento, persistente e devastador. Arrancou telhados, derrubou árvores, bloqueou estradas.

Depois, nos dias seguintes, vieram as chuvas fortes associadas às tempestades Leonardo e Marta. E foi essa água, já sem telhado que protegesse a estrutura, que entrou pela casa dentro e destruiu o que ainda restava.

Na madrugada de 28 de janeiro, Vera Santos, Tiago Gomes e os dois filhos menores tornaram-se quatro das pessoas do concelho que ficaram sem casa em Maçãs de D. Maria.

Por volta das 5h30 da manhã, o barulho no telhado já não deixava dúvidas. “Foi uma noite assustadora mesmo”, recorda Vera. No meio da aflição, enquanto o vento levaa o telhado e rasgava a cobertura, o filho mais novo pedia para “rezarmos para o vento passar”. Foi a forma que encontrou para lidar com o medo.

Quando o dia amanheceu, o telhado tinha sido arrancado. A casa ficou exposta. Nos dias seguintes, com a sucessão de tempestades, a chuva entrou sem resistência. A água percorreu divisões, danificou móveis, encharcou roupas, inutilizou eletrodomésticos.

“Foi tudo. Só conseguimos recuperar algumas roupas, e mesmo essas ficaram cheias de água. Ficámos sem nada”, conta.

A habitação, que não é propriedade do casal, está hoje coberta por uma lona e continua sem condições de habitabilidade. “Não está lá ninguém e não está em condições. Não faço a mínima ideia do que vai acontecer”. A incerteza quanto ao futuro junta-se à perda quase total dos bens.

DUAS SEMANAS NO PAVILHÃO MUNICIPAL

Nessa madrugada saíram de casa sem saber quando voltariam. Acabaram por não voltar.

Durante cerca de duas semanas, ficaram alojados no Pavilhão Desportivo de Alvaiázere, transformado pela Câmara Municipal numa Zona de Concentração e Apoio à População para acolher pessoas e famílias desalojadas.

Ali dormiram, ali fizeram refeições, ali tentaram reorganizar a vida enquanto ainda estavam em choque. “Fomos apoiados logo desde a primeira manhã”, recorda Vera, que partilhou a “casa” improvisada com outras famílias e pessoas desalojadas. “Tornámo-nos uma família”.

Entre colchões improvisados e partilha de espaços, criou-se uma rede de apoio essencial nos primeiros dias. Para os filhos, a mudança foi abrupta. Deixaram o quarto, os brinquedos, a rotina. A estabilidade desapareceu numa noite.

AJUDAR OS OUTROS MESMO DEPOIS DE PERDER TUDO

Tiago Gomes perdeu quase tudo, mas não ficou de braços cruzados. Arregaçou as mangas e nos dias imediatamente a seguir à tempestade, esteve no terreno a ajudar a desobstruir estradas e a cortar árvores derrubadas pelo vento.

Trabalha na área da madeira e foi chamado a intervir perante o cenário de destruição. Enquanto a família ainda não sabia onde iria viver nas semanas seguintes, ajudava a abrir caminhos para que outros pudessem circular.

“Foi logo que aconteceu esta tragédia que comecei a trabalhar nas limpezas. Há imensa coisa ainda por fazer”, afirma. Entretanto, já retomou a sua atividade profissional habitual. “Já voltei ao meu trabalho normal”.

O gesto revela o espírito de entreajuda que marcou os dias seguintes à tempestade no concelho. Mesmo afetado, continuou a contribuir para a recuperação coletiva.

UM MÊS DEPOIS, DIAS MAIS CALMOS

Passado um mês sobre a madrugada de 28 de janeiro, a família vive agora numa habitação social em Alvaiázere, na sede do concelho. A casa foi disponibilizada já mobilada e equipada com o essencial.

Mas recomeçar implicou sair de Maçãs de D. Maria e mudar de freguesia. “Mudou tudo. Ficámos sem casa, sem nada, e tivemos de transitar para outro lado”, explica Vera.

Hoje, diz, os dias são “mais calmos e tranquilos”, mas a adaptação continua. “Ainda é tudo muito recente. Os meninos estão mais fechados”.

O filho mais velho já estudava em Alvaiázere e manteve-se na mesma escola. O mais novo continua a frequentar a escola em Maçãs de D. Maria, o que obriga a deslocações diárias e a uma reorganização exigente da vida familiar.

O casal não esquece o apoio recebido. “A vereadora, o presidente da Câmara, os bombeiros, foram todos impecáveis, foram incansáveis”. A alimentação, o acolhimento no pavilhão e a solução habitacional foram determinantes para garantir alguma estabilidade num momento crítico.

A antiga casa permanece coberta por uma lona, à espera de uma decisão sobre o seu futuro. A vida da família segue agora noutro ponto do concelho.

Um mês depois da noite de terror, a família tenta transformar a perda num recomeço. Hoje vivem um dia de cada vez. A antiga casa continua inabitável e o futuro é incerto. Ainda assim, Vera mantém uma postura de esperança. “Há que ter fé. Às vezes há males que vêm por bem. Esperamos que assim seja”.

A história de Vera Santos e Tiago Gomes é apenas um exemplo do impacto da tempestade Kristin, que deixou marcas bem visíveis no concelho de Alvaiázere. Árvores caídas, telhados arrancados, estradas bloqueadas. Mas há marcas que não se medem em relatórios. São as casas que deixaram de o ser. São as famílias que tiveram de sair de um lugar para aprender a viver noutro.

Em Alvaiázere, a reconstrução continua. E para Vera, Tiago e os filhos, faz-se um dia de cada vez.