PROPRIEDADE: CASA DO CONCELHO DE ALVAIÁZERE

DIRECTOR: MARIA TEODORA FREIRE GONÇALVES CARDO

DIRECTOR-ADJUNTO: CARLOS FREIRE RIBEIRO

Combustíveis mais caros apertam contas e pressionam gestão das IPSS do concelho de Alvaiázere

SUBIDA DOS COMBUSTÍVEIS AUMENTA CUSTOS E APERTA MARGENS DE GESTÃO NAS INSTITUIÇÕES DO CONCELHO

As IPSS de Alvaiázere não podem simplesmente deixar o carro na garagem. Todos os dias há refeições para entregar, utentes para transportar, cuidados para prestar e deslocações que têm de ser feitas. Quando o preço dos combustíveis sobe, a despesa acompanha.

É sobretudo no Serviço de Apoio Domiciliário que o impacto se sente. As viaturas percorrem diariamente várias localidades do concelho para garantir que os serviços chegam às casas dos utentes.

Na Santa Casa da Misericórdia de Alvaiázere, a despesa com gasóleo já rondava os 8.000 euros até agosto. Na ASCRA, a estimativa aponta para uma subida da despesa mensal de cerca de 500 para 700 euros.

Em Pussos, o cenário é diferente. O investimento feito anteriormente em viaturas elétricas reduziu significativamente a exposição da instituição à subida dos combustíveis.

Na Associação da Casa do Povo de Maçãs de Dona Maria, a aposta na mobilidade elétrica também tem permitido limitar o impacto da subida dos combustíveis. A instituição dispõe atualmente de uma frota de 13 viaturas, das quais três são elétricas, resultado de um investimento feito pela direção precisamente com o objetivo de reduzir os custos associados ao combustível.

Mas há um problema comum. Mesmo quando as IPSS conseguem reduzir o consumo, os aumentos chegam por outras vias, nomeadamente através dos preços dos produtos e serviços adquiridos às empresas fornecedoras.

8.000 EUROS EM GASÓLEO ATÉ AGOSTO

Na Santa Casa da Misericórdia de Alvaiázere, os números ajudam a perceber a dimensão da despesa. Até agosto, a instituição já tinha gasto aproximadamente 8.000 euros em gasóleo para viaturas e geradores. Em 2025, o gasóleo representava 7,6% do orçamento geral da instituição.

A provedora, Adelaide Santos, admite que o aumento recente tem sido “muito oneroso”. Mas há uma particularidade que dificulta uma comparação direta com o ano passado. A Santa Casa modernizou a frota e passou a utilizar duas carrinhas elétricas nas rotas de distribuição de alimentação aos utentes de apoio domiciliário.

A mudança permitiu reduzir o consumo de combustíveis fósseis e otimizar algumas deslocações. “Felizmente, já dispomos de duas carrinhas elétricas para as rotas da distribuição da alimentação de apoio domiciliário”.

Apesar do aumento dos custos, a instituição garante que mantém os serviços sem alterações. A gestão passa por um controlo diário da despesa e pela otimização das rotas.

ASCRA JÁ DEVERÁ GASTAR MAIS 200 EUROS POR MÊS

Na Associação Social, Cultural e Recreativa de Almoster, a evolução é mais fácil de quantificar.

Há cerca de um ano, a instituição gastava aproximadamente 500 euros por mês em combustível. Atualmente, a despesa deverá estar próxima dos 700 euros. O aumento resulta também do crescimento do número de utentes, mas a direção considera que a maior fatia se deve ao preço dos combustíveis.

Na estrutura de custos da ASCRA, os combustíveis têm representado, nos últimos anos, cerca de 6%. O presidente da direção estima que, desde o início da atual subida dos preços, o custo total associado aos combustíveis tenha aumentado entre 20% e 30%. Paulo Reis Silva salienta, contudo, que a instituição mantém uma “situação financeira e de tesouraria estável”, o que tem permitido absorver este aumento sem sacrificar outras despesas consideradas necessárias.

O impacto é maior no apoio domiciliário. No Centro de Dia, o transporte dos utentes concentra-se essencialmente no início e no final do dia. No apoio domiciliário, as viaturas estão em circulação durante grande parte do dia. “Se há um ano gastávamos cerca de 500€ por mês, neste momento, devemos andar já próximos dos 700€ mensais”.

Paulo Reis Silva, presidente da direção da ASCRA, considera que a instituição tem conseguido absorver o aumento graças a uma situação financeira estável.

Mas deixa um alerta para os próximos meses. “O prolongar desta situação de preços altos obriga-nos a ter ainda mais rigor na gestão”. A preocupação é evitar que, no futuro, o aumento dos combustíveis obrigue a cortar noutras despesas e acabe por afetar a qualidade dos serviços.

EM PUSSOS, A APOSTA ELÉTRICA FEZ DIFERENÇA

No Centro Cultural Recreativo e Social da Freguesia de Pussos, o aumento dos combustíveis tem tido um impacto reduzido. A explicação está no investimento feito pela anterior direção em veículos elétricos. Segundo Mário Bruno, atual presidente da direção, a medida permitiu diminuir substancialmente o consumo de combustíveis fósseis.

Questionado sobre a evolução da despesa com combustível, a resposta é perentória: “neste momento, menos”.

A subida dos combustíveis acaba, contudo, por chegar à instituição por outra via. O responsável aponta para o aumento dos preços dos produtos alimentares, uma vez que os fornecedores acabam por refletir nos seus preços os custos associados ao transporte

“Os fornecedores fazem repercutir o aumento dos combustíveis nos produtos”.

Até ao momento, a instituição não alterou rotas, serviços ou outras despesas por causa deste aumento.

CASA DO POVO ABSORVE AUMENTO SEM ALTERAR SERVIÇOS

Na Associação da Casa do Povo de Maçãs de Dona Maria, os combustíveis representam atualmente entre 2% e 3% do orçamento anual da instituição. A presidente da direção, Silvia Lopes, explica que a frota numerosa, composta por 13 viaturas, torna esta uma despesa relevante, apesar do investimento realizado em três veículos elétricos.

Nas últimas quatro a seis semanas, a instituição registou um agravamento de cerca de 32% no preço por litro dos combustíveis face ao mesmo período de 2025. Segundo Silvia Lopes, esse aumento representa um esforço adicional de várias centenas de euros por mês.

Ainda assim, a despesa média mensal com combustível não aumentou face ao ano passado. A direção atribui essa evolução ao investimento realizado na frota elétrica, que permitiu reduzir a dependência dos combustíveis convencionais.

O impacto da subida dos preços é sentido sobretudo no Transporte de Doentes Não Urgentes, através das ambulâncias, devido às deslocações diárias para consultas e tratamentos, muitas vezes em centros hospitalares distantes das localidades de residência dos utentes. O Serviço de Apoio Domiciliário e o Centro de Convívio são também particularmente afetados, devido à dispersão geográfica e às deslocações necessárias para prestar cuidados, entregar refeições e assegurar o transporte porta a porta dos utentes.

Apesar do aumento dos custos, a instituição não alterou percursos nem reduziu serviços. “Não podemos encurtar rotas, falhar visitas ou refeições, nem deixar de levar os doentes às suas consultas e tratamentos”, sublinha Silvia Lopes. A pressão sobre as contas poderá, contudo, levar ao adiamento de algumas despesas não urgentes. A presidente da direção aponta, nomeadamente, para a possibilidade de adiar ações de manutenção preventiva nas instalações que não sejam consideradas prioritárias.

A repercussão do aumento nos utentes está, por outro lado, fora de questão. As mensalidades são calculadas com base nos rendimentos do utente e do agregado familiar, enquanto os acordos de cooperação com a Segurança Social têm valores fixos. Na prática, explica Silvia Lopes, é a própria instituição que absorve a totalidade do aumento dos custos com combustível.

Se os preços se mantiverem elevados nos próximos meses, a direção terá de continuar a procurar formas de absorver o impacto sem colocar em causa os serviços prestados. A aquisição dos três veículos elétricos foi precisamente uma das medidas adotadas para minimizar a exposição da instituição aos combustíveis.

Quanto aos apoios públicos, a Associação da Casa do Povo de Maçãs de Dona Maria candidatou-se ao apoio extraordinário aos combustíveis destinado ao setor social, no valor de 600 euros, mas, à data, ainda aguardava uma decisão.

QUEM PAGA A DIFERENÇA?

Esta é uma das questões mais delicadas. As IPSS não conseguem simplesmente aumentar os preços dos serviços sempre que os seus custos sobem.

Na ASCRA, as vagas abrangidas pelos Acordos de Cooperação com a Segurança Social obedecem a regras específicas. O cálculo das mensalidades considera os rendimentos dos agregados familiares e não acompanha diretamente a evolução dos custos com combustível.

Na Santa Casa, a situação é semelhante. A instituição acaba por absorver a maior parte do aumento. A revisão das mensalidades é anual e, quando acontece, a despesa adicional com combustível já foi suportada.

Há ainda outra realidade a ter em conta. “Muitos dos nossos utentes têm reformas muito reduzidas”, explica Adelaide Santos. Por isso, acrescenta, “é difícil exigir os aumentos que efetivamente seriam utentes, com deslocações que representam uma parcela significativa dos custos da instituição devidos para fazer face a estas despesas”.

Em Pussos, a posição é igualmente clara. “Prefiro ter défice orçamental do que deixar de prestar o serviço social inerente à nossa missão”, admite Mário Bruno.

APOIOS EXISTEM, MAS NÃO CHEGAM PARA COBRIR TUDO

As instituições também procuram os apoios disponíveis. A Santa Casa tem apresentado candidaturas aos incentivos que vão surgindo. A provedora considera, contudo, que estes apoios tardam e ficam aquém da despesa efetivamente suportada. “São sempre insuficientes para cobrir a diferença efetiva de preço”.

Na ASCRA, a direção aponta para um apoio pontual de 600 euros destinado às IPSS, além do impacto dos descontos no ISP. Para Paulo Reis Silva, o montante acaba por ter um peso reduzido perante a duração e dimensão dos aumentos. “A manter-se esta situação, impõem-se medidas mais musculadas de apoio a estas instituições”.

Também em Pussos está a ser preparada uma candidatura aos apoios existentes.

A Casa do Povo de Maçãs de Dona Maria é igualmente uma das instituições que procurou recorrer ao apoio extraordinário disponível. A candidatura aos 600 euros foi apresentada, mas, segundo Silvia Lopes, a instituição aguardava ainda a decisão.

O PROBLEMA NÃO ESTÁ APENAS NO DEPÓSITO

Para as IPSS, a subida dos combustíveis tem um efeito direto e outro indireto.

O primeiro aparece na fatura das próprias instituições. O segundo chega através dos fornecedores, que suportam custos de transporte e os refletem nos preços dos bens e serviços.

Na ASCRA, existe ainda a preocupação com os próximos meses. A chegada do outono e do inverno significa maior utilização do aquecimento e, consequentemente, maior consumo de gás.

Na Santa Casa, o aumento prolongado dos combustíveis pode também reduzir o benefício esperado do investimento feito na frota elétrica. A instituição apostou na modernização para baixar os custos. Se os combustíveis fósseis continuarem a subir, parte dessa poupança poderá acabar absorvida pelo aumento dos restantes encargos.

Na Casa do Povo de Maçãs de Dona Maria, a estratégia passa igualmente por reforçar a eficiência da frota. A existência de três viaturas elétricas permite limitar o impacto da subida dos combustíveis, mas a instituição continua dependente das restantes viaturas para assegurar os serviços diários.

SERVIÇO CONTINUA, MAS A CONTA FICA MAIS PESADA

Por enquanto, as instituições mantêm os serviços e as rotas. É essa a prioridade das direções. Mas cada quilómetro percorrido tem agora um custo maior.

Num concelho onde as distâncias entre localidades e as casas dispersas fazem parte da realidade diária, o combustível não é uma despesa que possa simplesmente ser eliminada. As IPSS podem otimizar percursos, apostar em veículos elétricos e procurar apoios. Mas continuam a precisar de ir ao encontro dos seus utentes. E, enquanto os preços se mantiverem elevados, terão de continuar a fazer essa viagem com contas cada vez mais apertadas.

Na Casa do Povo de Maçãs de Dona Maria, a direção assume a mesma prioridade: manter todos os serviços e deslocações necessários, mesmo perante o aumento dos custos. A aposta em viaturas elétricas constitui uma forma de reduzir a exposição aos preços dos combustíveis, mas não elimina a necessidade de suportar os encargos associados às restantes viaturas.

A evolução dos preços nos próximos meses será, por isso, determinante para a gestão da instituição. Até agora, o aumento não levou a alterações nos serviços prestados aos utentes, mas já obriga a uma maior ponderação sobre despesas que possam ser adiadas sem comprometer o funcionamento da instituição.