Marilyn Gomes da Silva e Dalila Gomes cresceram em Alvaiázere. Há mais de vinte anos que vivem em Jersey, nas Ilhas do Canal, a trabalhar e a construir vida longe da terra natal. Em janeiro, quando as imagens dos estragos causados pelas tempestades começaram a circular nas redes sociais, as duas irmãs gémeas viram o que toda a gente viu: casas destruídas, estradas cortadas, famílias com muitas carências. A diferença é que não ficaram à espera que alguém fizesse alguma coisa.
Em poucas semanas, organizaram uma recolha de donativos a partir de Jersey, angariaram mais de sete mil libras, encheram três paletes de bens essenciais e atravessaram a Europa para os entregar pessoalmente a quem mais precisava no concelho.
COMO TUDO COMEÇOU
A iniciativa nasceu de uma conversa entre as duas irmãs. “Quando começou esta desgraça aqui em Portugal, eu disse à minha irmã que tínhamos de ajudar as pessoas que vivem em Alvaiázere, e a minha irmã concordou de imediato “, contou Dalila.
O ponto de partida foi a lavandaria que têm em Jersey há duas décadas. As duas começaram a fazer e a vender bolos. Colocaram uma caixa na loja para recolher contribuições voluntárias. A palavra correu depressa.
“Os meus clientes foram incríveis. Não há palavras”, disse Dalila. Clientes com quase cem anos deslocaram-se à loja propositadamente para deixar o seu donativo. Uma senhora de 83 anos ajudou a organizar os bens. Amigos, empresas locais e conhecidos juntaram-se à causa. O valor final angariado em Jersey ficou nas 7.100 libras, cerca de oito mil euros.
TRÊS PALETES DE BENS E MUITAS COMPRAS EM PORTUGAL
Os bens recolhidos na ilha foram enviados em três paletes grandes, transportadas por um motorista que preferiu manter o anonimato. Roupa, toalhas, produtos de higiene, alimentos, edredões e muito mais fizeram a viagem até Alvaiázere.
Mas as irmãs não pararam aí. Já em Portugal, continuaram a comprar. Leite, massa, arroz, bolachas, enlatados, champôs, pasta de dentes, sabonetes, cremes, escovas de dentes… “Comprámos, comprámos, comprámos”, resumiu Dalila, enquanto percorria as prateleiras do supermercado com vários carrinhos cheios.
Durante cerca de uma semana, transformaram a casa da família, no Seixal, num ponto de distribuição, aberto a quem precisava. “Muita gente veio buscar coisas, levavam o que necessitavam”, dizem. A par disso, entregaram apoio a instituições como o Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI) e o Grupo Sócio Caritativo de Alvaiázere.
AS PESSOAS QUE FICARAM NA MEMÓRIA
O contacto direto com a realidade deixou marcas. As irmãs relatam situações de carência extrema, que dizem nunca ter visto. “Eu já chorei e tenho chorado quase todos os dias. Vi uma situação que me chocou muito. Uma senhora a viver em condições muito precárias. É muito complicado”, confessam, recordando o caso que mais as marcou.
Trata-se de uma idosa que vivia em condições de extrema precariedade, sem chão em casa, sem aquecimento, sem um mínimo de condições. “Eu disse à minha irmã que, quando fossemos a Portugal, era a primeira pessoa que íamos visitar”.
Levaram-lhe edredões, cobertores, roupa, fronhas e comida. Ficaram perturbadas com o que viram. “Nem sequer ponho um cachorro a viver assim, quanto mais uma pessoa”.
Ajudaram também jovens estudantes estrangeiros que, durante as férias escolares, ficam sem bolsa de apoio e sem acesso a refeições. Souberam deles através de uma conhecida local. Foram ao supermercado e encheram carros de comida. “Eles ficaram tão felizes. A senhora disse que eles foram cantando para casa”, tal era a alegria.
APROVEITAMENTO DE QUEM NÃO PRECISA
As duas irmãs destacaram o sentimento de satisfação por ajudarem quem mais precisa, mas não esconderam o sentimento de tristeza ao se aperceberem do aproveitamento indevido de donativos por parte de pessoas sem necessidade nenhuma.
“A gente está a fazer isto porque há pessoas que precisam mesmo de ajuda”, sublinham. Contudo, “houve pessoas que vieram a nossa casa que não estavam a precisar. Pessoas, provavelmente, com mais possibilidades que nós”, dizem, visivelmente indignadas, denunciando que houve pessoas sem necessidades a tentarem levar bens que compraram com os donativos que angariaram.
A situação levou mesmo a restringir o acesso aos donativos. “Isto é para pessoas que precisam mesmo”, afirmam. “A gente trabalhava à noite a fazer bolos para vender, as nossas amigas ajudaram, e depois há pessoas assim a aproveitar-se”.
Apesar disso, garantem que a maioria das pessoas procurou ajuda por necessidade real, muitas vezes com vergonha. “Há gente que está aflita, há pessoas aflitíssimas e não pedem”, lamentam, lembrando que há carências escondidas no concelho.
UMA COMUNIDADE QUE RESPONDEU
Marilyn e Dalila reconhecem que a dimensão da iniciativa ultrapassou largamente o que inicialmente imaginaram. “Pensávamos fazer umas mil libras, mas as pessoas são muito generosas em Jersey”, admitem. Destacam o envolvimento de toda a comunidade, incluindo clientes, amigos, empresas e até pessoas idosas. “Toda a gente ajudou. Não há palavras”.
O que as irmãs descrevem sobre Jersey é a imagem de uma comunidade que se mobilizou sem hesitar. Portugueses e ingleses, clientes de longa data e simples conhecidos, todos contribuíram. “Os ingleses são muito bondosos e também os portugueses”, disse Marilyn.
Em Portugal, a resposta local foi igualmente calorosa. Algumas pessoas passaram pela casa da família para ajudar a organizar e distribuir os bens. Entre essas pessoas, destacaram o apoio fundamental de Sandra Lopes no terreno. “Ela foi incrível”.
“Nós fizemos o que podíamos. Já fizemos muito”, disseram as duas, sem qualquer sinal de quem espera reconhecimento. “O meu pai e a minha mãe eram assim. A gente adora ajudar as pessoas”.
Marilyn e Dalila são filhas de João Gomes e Maria Ângela Gomes, naturais do concelho de Alvaiázere. Regressaram a Jersey poucos dias depois, com as paletes vazias e a consciência de que fizeram o que podiam, a partir de onde estavam, por quem ficou.
A ação destas duas alvaiazerenses mostra o papel ativo da diáspora em momentos de crise, mas também levanta um alerta sobre a necessidade de garantir que a ajuda chega a quem mais precisa.



