A arte de construir muros em pedra seca no Maciço Calcário de Sicó passou a integrar oficialmente o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. A decisão foi publicada a 3 de junho em Diário da República e representa um importante reconhecimento de uma prática ancestral profundamente ligada à paisagem, à história e à identidade de territórios como Alvaiázere.
A inscrição foi aprovada pelo Património Cultural, Instituto Público, através de despacho assinado pelo presidente do Conselho Diretivo, João Soalheiro, em 1 de abril deste ano. Segundo o Anúncio n.º 131/2026, a decisão reconhece a relevância desta manifestação cultural enquanto “reflexo da identidade da comunidade envolvente” e dos “processos sociais e culturais nos quais teve origem e se desenvolveu”.
UMA MARCA DA PAISAGEM DE ALVAIÁZERE E DE SICÓ
Quem percorre as serras e campos do concelho de Alvaiázere encontra facilmente estes muros de pedra calcária que delimitam terrenos, sustentam socalcos ou integram construções tradicionais. São elementos discretos, mas inseparáveis da paisagem característica do Maciço de Sicó.
A técnica consiste na construção manual de muros através da sobreposição e encaixe de pedras calcárias, sem recurso a argamassas de ligação. A estabilidade resulta exclusivamente do conhecimento técnico e da experiência dos “mestres” que dominam esta arte.
De acordo com a informação divulgada pelo Património Cultural, “trata-se de uma técnica de construção ancestral executada manualmente por mestres, ou ‘pedreiros’, que dominam a arte”.
Os muros são construídos com pedra recolhida nos afloramentos calcários da região de Sicó e de zonas geograficamente próximas. O saber-fazer é transmitido entre gerações, sobretudo através da observação, da prática e da aprendizagem familiar.
RECONHECIMENTO DE UMA HERANÇA VIVA
O Património Cultural destaca que a inscrição no Inventário Nacional reconhece não apenas a técnica construtiva, mas também a sua dimensão social e cultural.
Segundo a entidade, esta prática continua viva graças à transmissão de geração em geração do conhecimento e ao envolvimento das comunidades locais. Apesar das adaptações introduzidas nos últimos anos, o essencial do saber-fazer mantém-se preservado.
“A manifestação da arte da construção de muros de pedra seca é indissociável do território onde a mesma se desenvolve, o Maciço de Sicó, dando corpo à expressão de prática cultural integrada na paisagem”, refere a instituição.
UM PASSO IMPORTANTE PARA O FUTURO
A candidatura ao Inventário Nacional foi promovida pela Terras de Sicó – Associação de Desenvolvimento, na sequência de trabalho de investigação realizado no terreno e apoiado por diversos estudos científicos e técnicos.
Para a associação, esta classificação representa mais do que um reconhecimento simbólico. Em nota divulgada após a publicação em Diário da República, a entidade considera que este é “um passo decisivo para garantir a salvaguarda desta prática cultural no território abrangido pela inventariação”.
A inscrição permitirá avançar com medidas de valorização, preservação e divulgação desta arte tradicional, contribuindo para que o conhecimento não se perca e continue a ser transmitido às novas gerações.
CANDIDATURA À UNESCO NO HORIZONTE
O reconhecimento nacional poderá ser apenas uma etapa de um processo mais ambicioso.
A Terras de Sicó assume que a decisão agora conhecida constitui também “um incentivo para se avançar com a candidatura da arte de construção dos muros de pedra seca a Património Cultural Imaterial da UNESCO”.
Esse desafio passará pelo envolvimento de outros territórios ligados às serras calcárias da região Centro, nomeadamente os integrados no Maciço Calcário Estremenho, numa candidatura conjunta.
Num concelho como Alvaiázere, onde a pedra calcária molda a paisagem e onde muitos destes muros continuam presentes em propriedades agrícolas, caminhos rurais e núcleos tradicionais, a inscrição assume um significado especial.
Mais do que estruturas de suporte ou divisão de terrenos, estes muros representam séculos de conhecimento acumulado, adaptação ao território e ligação das comunidades à sua terra.
O reconhecimento agora atribuído pelo Estado português reforça a importância de preservar um património que continua visível no quotidiano das aldeias de Alvaiázere e de toda a região de Sicó, contribuindo para afirmar a identidade de um território onde a paisagem e a cultura caminham lado a lado.

