PROPRIEDADE: CASA DO CONCELHO DE ALVAIÁZERE

DIRECTOR: MARIA TEODORA FREIRE GONÇALVES CARDO

DIRECTOR-ADJUNTO: CARLOS FREIRE RIBEIRO

Prejuízos ultrapassam 230 mil euros só em estufas e continuidade do negócio depende dos apoios

TEMPESTADES DEIXAM EMPRESA AGRÍCOLA DE PUSSOS SÃO PEDRO À BEIRA DA RUTURA

A empresa agrícola Simões & Ramos, na freguesia de Pussos São Pedro, sofreu prejuízos que podem ultrapassar os 250 mil euros na sequência das recentes tempestades. Só em estufas, a perda ronda os 234.300 euros. O futuro da exploração está agora em aberto e vai depender dos apoios que vierem a ser atribuídos.

A empresa, gerida pelos irmãos Catarina e Nuno Julião, tinha 7.100 metros quadrados de estufas. O custo de reconstrução é de 33 euros por metro quadrado. “Só para reconstruir as estufas estamos a falar de 234 mil euros. Contando com o que não produzimos e com o que lá estava plantado, acho que chegamos aos 250 mil euros”, afirma Catarina Julião.

As estruturas metálicas ficaram vergadas com a força do vento. Os plásticos resistiram inicialmente, mas acabaram por ceder quando os ferros tombaram. “O vento foi como um baralho de cartas. Está tudo vergado. As portas ficaram deitadas no chão”, descreve.

No interior estavam culturas de tomate, pepino, feijão verde, favas e cebolo. Parte destas produções destinavase à venda direta e abastecimento local. Outras estavam em fase inicial, com colheitas previstas para maio, junho e julho. “Para este ano não vamos ter nada”, admite.

A empresa não tem seguro agrícola. Segundo Catarina Julião, os custos são incomportáveis para pequenos produtores. “Há muito poucas seguradoras a fazer seguros agrícolas e os valores são exorbitantes. Para a nossa dimensão é impossível”, explica. E acrescenta: “A maioria das explorações não tem seguro. Arriscamos até um dia acontecer o que nos aconteceu”.

Neste momento, a família está a fazer o levantamento dos danos e aguarda definição de apoios. Fala-se na possibilidade de comparticipação de 50 por cento. Mas isso pode não ser suficiente para garantir a continuidade da atividade.

“Se tivermos prejuízos de 200 mil euros e nos derem 100 mil, temos de ir à banca buscar o resto. Não estamos dispostos a correr esse risco. Se daqui a uns anos vier outra intempérie e destruir tudo outra vez, ficamos com a dívida”, afirma.

A decisão ainda não está tomada. “Está tudo muito incerto. Não sabemos o que vamos fazer”, reconhece. A empresa pondera reduzir a atividade ou até encerrar a produção, mantendo apenas a vertente de venda. “Dependendo dos apoios, podemos acabar com a produção ou fechar tudo, mesmo tudo”.

ESCASSEZ NÃO, MAS AUMENTOS SÃO INEVITÁVEIS

Além do impacto direto na exploração, as consequências vão sentir-se no mercado. A empresa terá de comprar produtos a terceiros para manter a loja a funcionar. “Vamos ter de comprar tudo”, diz Catarina Julião. E antecipa o que considera inevitável: “Não vai haver escassez, mas os preços vão aumentar”.

Catarina Julião acredita que esta realidade pode levar a uma maior consciência por parte dos consumidores. “Se calhar agora as coisas começam a ficar mais caras e as pessoas começam a valorizar mais o que é a vida de agricultor. Muitas vezes dizem que os produtos estão caros, mas não têm noção do trabalho e das despesas que estão por trás”.

As principais zonas agrícolas do país foram afetadas pelas últimas tempestades. Centro, Oeste e Alentejo registaram estragos significativos. No Baixo Mondego há ainda campos debaixo de água. “Foi um ano de muita água e muito vento. As coisas vão aumentar, não há volta a dar”, sublinha.

Na exploração de Pussos São Pedro trabalhavam os dois irmãos e uma funcionária a tempo parcial. O ritmo de trabalho era contínuo, com plantações faseadas ao longo do ano. “Isto trocounos as voltas todas. Tínhamos um ritmo, uma organização. Agora há uma quebra muito grande”, lamenta.

Catarina Julião defende maior apoio aos pequenos agricultores. “Estamos sujeitos ao sol, à chuva, às intempéries. Ou somos apoiados nestas situações ou não sei como vamos conseguir continuar”.

Para já, o cenário é de incerteza. A decisão final dependerá do enquadramento dos apoios nacionais e municipais e da viabilidade financeira da reconstrução.

Carina Gonçalves