Foi com alguma surpresa que soubemos, na terceira semana de Outubro, do plano de paz para a guerra Rússia-Ucrânia, elaborado e apresentado pelos Estados Unidos da América (EUA) à revelia da Europa, constante de vinte e oito pontos.
Entre esses pontos constam, designadamente, a perda da Crimeia e da região do Donbass para a Rússia, a redução das Forças Armadas da Ucrânia em cerca de 250.000 elementos, a impossibilidade de adesão à NATO, a utilização de parte dos activos russos congelados na reconstrução da Ucrânia, garantias de segurança por parte dos EUA mediante a respectiva compensação e a realização de eleições ucranianas no prazo de 100 dias.
A Rússia, além do já referido, voltaria a integrar o G8 (grupo de países altamente industrializados), seria libertada das sanções económicas sobre ela impendentes e amnistiada, tal como a Ucrânia, de todos os crimes de guerra cometidos durante o conflito.
Este projecto de acordo, inicialmente esboçado por representantes de Trump e Putin e exibido a um representante Ucraniano, mereceu do Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky o comentário de que os ucranianos estavam confrontados entre perder a sua dignidade e perder o principal aliado EUA.
Os principais dirigentes europeus e da UE foram apanhados de surpresa pelo teor do plano e por terem sido ignorados pelos EUA na sua elaboração, passando a mensagem de que o mesmo seria uma base de partida para um verdadeiro acordo de paz.
Muitos analistas e comentadores vão mais longe e não hesitam em dizer que tal plano se resume à capitulação da Ucrânia perante o invasor Rússia que sai por cima no conflito e obtém tudo o que sempre ambicionou, ou seja, cerca de um quinto do território ucraniano e tornar a Ucrânia um vizinho inofensivo e subjugado.
Iniciado em Fevereiro de 2022, o conflito Rússia-Ucrânia arrasta-se há quase quatro anos e salda-se por um grande número de mortos e feridos, milhões de refugiados e um forte impacto na economia global, especialmente em energia e alimentos. Sendo a Rússia uma potência nuclear e com elevada capacidade militar, bem visível nos estragos que tem causado em alvos civis e habitacionais por toda a Ucrânia, não é de espantar que os ucranianos estejam cansados de uma guerra que os vem flagelando desde 2022. Mas isso não significa que estejam dispostos ou concordem com um plano de paz concebido praticamente à sua revelia e que, no fundo e tal como está gizado, mais não lhes garante senão a sua submissão aos interesses da Rússia.
A Europa, por seu turno, que tem sido o aliado mais fiável da Ucrânia, apesar do regular e persistente apoio que repetidamente lhe vem manifestando, não dispõe, ainda assim, de capacidade militar suficiente e capaz de travar o poder militar da Rússia e de reverter a situação no terreno. Neste contexto, se perder o apoio dos EUA, o mais certo é a Ucrânia vir a sucumbir perante a superioridade militar da Rússia.
Ora, ao apresentarem um tal plano de paz, em que a Rússia vê satisfeitas as suas principais exigências, os EUA, sob a liderança de Trump, parecem privilegiar, objectivamente, os principais interesses do invasor em detrimento do agredido, ameaçando ainda a Ucrânia de cessar os apoios que lhe vêm prestando o que seria dramático.
Conhecendo-se a volatilidade das ameaças de Trump, esperemos que tal não aconteça e que o referido plano venha a evoluir substancialmente no sentido de vir a ser um verdadeiro plano de paz, justa e duradoura.