PROPRIEDADE: CASA DO CONCELHO DE ALVAIÁZERE

DIRECTOR: MARIA TEODORA FREIRE GONÇALVES CARDO

DIRECTOR-ADJUNTO: CARLOS FREIRE RIBEIRO

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Um pingo de amor sobre a tragédia

Ainda que correndo o risco de chover no molhado, o tema é incontornável e justifica uma achega pois, desde que tenho memória, nunca vivi ou assisti a uma coisa assim. Falo da tempestade “Kristin” que, no final do passado mês de Janeiro, assolou o país, mormente a região centro e o distrito de Leiria, com ventos e chuvas fortes, deixando um rasto de destruição bem visível no destelhamento e destruição de habitações e outros edificados, arranque e corte de árvores, submersão e obstrução de estradas e outras vias de circulação, derrube da rede eléctrica, inundações, deslizamento de terras, derrocadas etc.

Em suma, uma tragédia de dimensões ainda incalculadas que deixou milhares de pessoas sem tecto e sem luz com tudo o mais que isso implica, levando autarcas e responsáveis governativos a equacionar e a pôr em marcha todas as formas possíveis de acorrer e auxiliar na resolução das situações mais dramáticas, reparando e minimizando os danos e devolvendo aos atingidos as condições mínimas de alojamento e habitabilidade.

Foi tal a dimensão da tragédia que, três semanas depois da passagem da “Kristin” e apesar dos esforços de reposição da obstruída rede eléctrica, ainda persistiam no distrito mais de 15.000 pessoas sem energia eléctrica, incluindo sete da minha aldeia, entre as quais uma solitária octogenária que, da noite para o dia, se viu privada da arca frigorífica onde guardava a comida aprovisionada, do aquecimento imprescindível para aguentar as frias noites de inverno e, o que não é de somenos para uma mãe idosa, da possibilidade de carregamento do telemóvel para poder comunicar e receber algum conforto e alento do filho distante.

Debalde se instaram as entidades competentes para corrigirem a situação, de fácil resolução, levando em consideração que o cabo de ligação da corrente eléctrica a sua casa repousava no chão à beira desta, arrastado por uma árvore arrancada e derrubada pela força do forte vento “kristiniano”. Não obstante e apesar de várias insistências, a situação foi-se mantendo inalterada e as provisões armazenadas na arca frigorífica foram levadas para o lixo.

E a situação arrastar-se-ia, vá lá saber-se por quanto tempo mais, não fosse o caso de, num fim de tarde de Fevereiro em que a chuva deu algumas tréguas, um par de vizinhos, solidários e atrevidos o bastante para subirem ao alto do poste eléctrico, não tivessem tido a ousadia de içar a ponta do cabo caído no solo e de a ligarem na outra ponta de forma a restabelecer a passagem da corrente para a referida habitação.

Isto feito e eis que a luz enche de novo a casa e assoma, num àpice, às janelas, iluminando cantos esquecidos, ensombrados e escurecidos há várias semanas, fazendo renascer a esperança da octogenária na continuidade de uma vida com o mínimo de conforto e o calor suficiente para lhe permitir enfrentar e resistir a mais um agreste e frio inverno.

E se acaso dúvidas houvessem àcerca disso, elas foram imediatamente desfeitas pela própria que, no limiar da porta entreaberta e com um sorriso alargado de orelha a orelha, exclamou, ainda incrédula e feliz de contentamento: ai, já tenho luz!

Tanto bastou para que os autores da proeza tivessem esquecido o risco que, solidária e humanisticamente, decidiram correr e se sentissem gratificados pelo sucesso da operação realizada.

Não obstante, subsiste a questão de saber quantas situações semelhantes poderiam ter sido solucionadas com igual ou maior prontidão se, porventura, tivesse sido efectuado um inventário das mesmas pelas entidades competentes após a passagem da “Kristin” ?! Uns pingos de amor a mais fariam a felicidade de muitos.