Há quem diga que o trema morreu em 2009, varrido pelo acordo ortográfico com a mesma pressa que se apagam nomes incómodos de comissões parlamentares. Mas o trema nunca aceitou o seu destino: fingiu-se de morto. Anda por aí, invisível, conspirando, um pequeno par de olhos sobre a letra u, à espera do momento certo para se vingar. Porventura com uma missão secreta: tremar, digo, tramar Ventura.
Porque Ventura, ao contrário do que pensa, não enfrenta apenas adversários políticos, jornalistas insolentes ou tribunais insistentes. Não. Porventura, o seu verdadeiro inimigo mora na gramática. É o trema, ofendido, que agora lhe sussurra: “a aventura ainda acaba mal”.
Esta é a força do trema: derrubar discursos inflamados com a subtileza de dois pontinhos esquecidos. Nem polícia de choque, nem tribunais constitucionais. Apenas um sinalzinho gráfico, um espírito rebelde da ortografia, a lembrar que a língua tem mais poder do que qualquer deputado aos berros.
E assim, entre tramado e tremido, “o bem-aventurado” Ventura percebe que não há acordo ortográfico capaz de salvá-lo daquilo que verdadeiramente o persegue: a pontuação vingativa.
Portanto, não te metas em aventuras ó Ventura. Não prometas mundos e fundos. Pela boca morre o peixe e ainda podes ser tramado pela cedilha. Não confundas força com forca.