Entramos no mês de agosto: férias, descanso, lazer, excessos alimentares, dietas e desligar do mundo. Sim, desligar do “mundo feio”. O mundo da fome e da guerra.
Uma mãe, diante de um filho malnutrido ou mutilado, sente mais do que dor física: ela vê como o mundo falha em proteger o que há de mais inocente. Sentirá culpa, raiva, impotência? Certamente sentirá uma dor que transcende o corpo, a existencial.
Meu filho
Ele está deitado.
Pesa pouco mais que quando nasceu.
Mas agora tem 4 anos,
tem nome,
tem cicatrizes no corpo e na alma.
A pele estica demasiado sobre os ossos.
As costelas contam histórias que ninguém quer ouvir.
As pernas que faltam, não doeram em mim,
quando foram arrancadas,
mas depois, sim, todas as noites.
Eu tento contar-lhe histórias.
Digo que um dia vai sarar,
que a guerra vai passar,
que o pão volta.
Mas ele não responde.
Não chora, só me olha.
E eu minto cada vez pior.
Às vezes fecho os olhos
e vejo-o correndo, com os dois pés,
cabelos ao vento e o rosto cheio de sol.
Se Deus me escuta, que escute agora.
Se a Terra ainda tem amor, que o dê a ele.
Se o mundo ainda pode mudar,
que comece por este corpo que um dia saiu do meu.
Porque se ele se apaga, eu também apago.
E então, talvez, a guerra nos tenha vencido.